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Jornal - Notícias da Igreja

Quaresma, desvios e transfigurações

 

Por vezes redescobrimos sentidos inesperados em experiências e palavras que possibilitam leituras diversas à luz de novos acontecimentos. Dei comigo a repetir a antiga fórmula escrita a giz, no quadro, nas aulas de estatística, agora com uma conotação quaresmal. O desvio padrão é «uma medida que expressa o grau de dispersão de um conjunto de dados…». Vejamos um exemplo: as modernas aplicações dos “smartphones” dão-nos a possibilidade de contabilizar o número de passos diários. Se eu assumir fazer 8000 passos como propósito pessoal para me manter saudável, no final de um tempo, posso avaliar a dispersão tendo como referência a média. Uns dias apenas consegui 3000, outros 4000… e excecionalmente 10 000. A média da dispersão pode ser avaliada e comparada com um padrão pré-estabelecido. O desvio médio pode ser significativamente superior ou inferior…

Será possível analisar o desvio padrão nas relações humanas? Será que alguém, alguma vez, mediu o desvio padrão existencial com o rigor aproximado ao dos cálculos probabilísticos?

 

Noutra perspetiva, para os batizados, Jesus é o padrão preexistente a partir do qual podemos avaliar os nossos desvios nos «pensamentos, atos e omissões». Ele é um padrão paciente que, em certos casos, parece confundir-se com a amostra desviada apenas para não ficarmos tão isolados. No caso dos três discípulos, Pedro, Tiago e João, os primeiros do grupo e os mais zelosos, o desvio não podia ser maior. Ele acompanha-os. Melhor: guia-os e revela-se como o divino padrão numa antevisão do que eles (e cada um de nós…) somos chamados a ser: luz e transparência. Na altura eles não perceberam nada. A matéria era difícil. Por vezes é tão difícil que raramente vai à primeira ou à segunda – eu ainda não percebo bem. É necessário que o Espírito Santo nos dê umas explicações à parte.

Haverá forma de corrigir o desvio numa amostra de atitudes significativamente distantes do padrão? Na Quaresma ressoa o apelo à conversão, isto é, à correção dos vários desvios, a partir das causas, que nos distanciam da referência principal. Podemos eventualmente recorrer à ajuda inspiradora de uma amostra quase perfeita, aquela que ao longo do processo, num tempo e lugar determinados, foi bem-sucedida na proximidade identificativa com o padrão. Neles a média do desvio é significativamente baixa. São os santos. Uma dessas amostras, S. Gregório Magno, no séc. VI, confessa-nos o segredo da fórmula para a correção do desvio: «as palavras divinas crescem com quem as lê», que é como quem diz: a vida divina cresce, a variabilidade é atenuada, a amostra aproxima-se do padrão quando se escutam as recomendações vindas do céu.

Parece simples, mas nem sempre conseguimos. Tudo começa quando o discípulo deixa para trás a dispersão da mundanidade e percorre, até um lugar seguro e silencioso, o caminho do Mestre. Fazer silêncio é a condição sina qua non para conhecer o padrão e aproximar-se dele. Silêncio para escutar a Palavra para além das muitas palavras que apenas aumentam o desvio.

Nélio Pita, CM

Imagem: “Transfiguração” (det.) | Rafael | 1516-20 | Museus do Vaticano

Publicado em 24.02.2018